domingo, 29 de novembro de 2009

AC/DC no Morumbi - SP


Tarde de sexta-feira. Trânsito horrível, chuvas, buzinas. Sem problemas, o porvir faz praticamente tudo valer a pena.

Morumbi, noite. Após uma chuva torrencial vinda de um céu plúmbeo, alma lavada, pra não mais chover. Luzes apagam, inicia o show, acompanhado do urro ensurdecedor de 65.000 (sim, sessenta e cinco mil) vozes alucinadas.

Sim, senhoras e senhores, este que vos escreve era um dos que participaram da tradicional ritualística de culto musical.

Desnecessário relatar história, trajetória, nada disso. AC/DC é um caso à parte.

O que não posso deixar de fora é a energia e empolgação dos senhores da banda... estar na estrada desde os anos 70, e em 2009 tocarem sem pausa, praticamente emendando uma musica na outra, não é pra qualquer um.

Além da qualidade do som, Sir Angus e sua patota mostraram como é que se toca, como é que se faz um show de verdade. Já calvos, debulhando os instrumentos e passando um pique que, na minha opinião, existe em poucas bandas brasileiras - várias já findas...

Vou fazer o upload dos videos depois; por enquanto fiquem com as fotos.







Abraço pro Danyllo, meu irmão camaradíssmo.

Cansaço......

Já disse uma vez... tomo a liberdade de dizer de novo.

Perdeu a graça, sério.
Estava intrigado, não conseguia entender a razão do pessoal do programa televisivo em insistir em quadros falidos com o rapaz... até ver nos portais de notícia que estavam sofrendo um processo polpudo, e preferiram curvar-se a deixar o processo correr.

A verdade é que o programa televisivo tornou-se o diário do rapaz.

Agora, estréio o momento vaticínio deste blog:

Em breve, o concurso para conseguir uma namorada pra ele.

Por gentileza, alguém me traga o saco de vômito.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Liturgia para Érato 0

Como a inspiração é o ópio necessário, sento-me aqui, envolto em espessa fumaça.




"Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

    Eu não sei por quê,
    Meu desde onde venho,
    Sou o ser que vê,
    E vê tudo estranho.

    Põe a tua mão
    Sobre o meu cabelo...
    Tudo é ilusão.
    Sonhar é sabê-lo."

    _______________________________________________________________
    "Não quero rosas, desde que haja rosas.
    Quero-as só quando não as possa haver.
    Que hei-de fazer das coisas
    Que qualquer mão pode colher?

    Não quero a noite senão quando a aurora
    A fez em ouro e azul se diluir.
    O que a minha alma ignora
    É isso que quero possuir.

    Para quê?... Se o soubesse, não faria
    Versos para dizer que inda o não sei.
    Tenho a alma pobre e fria...
    Ah, com que esmola a aquecerei?..."

    Fernando Pessoa, 7-1-1935.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Inominado 0

O metrô em movimento, eu olhando para fora.
Árvores, prédios, carros, pessoas, nuvens, pássaros...
Num relâmpago, eu fui árvores, prédios, carros, pessoas, nuvens, pássaros ao longe, olhando aquele cara na janelinha do metrô passando, pequenino...

E quando me senti tão pequeno, diminuto, me senti pleno, completo, feliz.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Manifesto dos invisíveis

Já é corrente na internet o Manifesto dos Invisíveis, e seria uma falha grosseira ele não estar postado aqui.
A verdade é que estamos tão 'ensimesmados' - como diria um luminar de nossa literatura - que muitas vezes não empregamos um momento para ser empáticos... Tenho habilitação, mas sou ciclista por opção e paixão. Atrás do volante, ainda assim sou ciclista e pedestre, e não ocorre a simbiose de nosso tempo: homem-veículo automotor.
O bom senso que costumo defender também tem outro nome, e é a palavra de ordem do manifesto. Bom senso vem em tamanho único, unissex, e todos adoram receber...

Peço desculpas apenas por não postar a lista dos subscritores, pois ela varia de blog para blog, devido à constante atualização. Mas fica a dica de fazer uma busca, e ler alguns nomes.

Notem entre eles o nome da Márcia Regina, falecida em janeiro... Ela terá uma postagem só para ela, em breve.



"Manifesto dos Invisíveis

Motorista, o que você faria se dissessem que você só pode dirigir em algumas vias especiais, porque seu carro não possui airbags? E que, onde elas não existissem, você não poderia transitar?

Para nós, cidadãos que utilizamos a bicicleta como meio de transporte, é esse o sentimento ao ouvir que “só será seguro pedalar em São Paulo quando houver ciclovias”, ou que “a bicicleta atrapalha o trânsito”. Precisamos pedalar agora. E já pedalamos! Nós e mais 300 mil pessoas, diariamente. Será que deveríamos esperar até 2020, ano em que Eduardo Jorge (secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo) estima que teremos 1.000 quilômetros de ciclovias? Se a cidade tem mais de 17 mil quilômetros de vias, pelo menos 94% delas continuarão sem ciclovia. Como fazer quando precisarmos passar por alguma dessas vias? Carregar a bicicleta nas costas até a próxima ciclovia? Empurrá-la pela calçada?

Ciclovia é só uma das possibilidades de infra-estrutura existentes para o uso da bicicleta. Nosso sistema viário, assim como a cidade, foi pensado para os carros particulares e, quando não ignora, coloca em segundo plano os ônibus, pedestres e ciclistas. Não precisamos de ciclovias para pedalar, assim como os carros e os caminhões não precisam ser separados. O ciclista tem o direito legal de pedalar por praticamente todas as vias e tem preferência, garantida pelo Código de Trânsito Brasileiro, sobre todos os veículos motorizados. A evolução do ciclismo como transporte é marca de cidadania na Europa e de funcionalidade na China. Já temos, mesmo na América do Sul, um grande exemplo de soluções criativas: Bogotá.

Não clamamos por ciclovias, clamamos por respeito. As leis de trânsito colocam em primeiro plano o respeito à vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que assusta e agride.

A recente iniciativa do Metrô de São Paulo de emprestar bicicletas e oferecer bicicletários é importante. Atende a uma carência que é relegada pelo poder público: a necessidade de espaço seguro para estacionar as bikes. Em vez de ciclovias, a instalação de bicicletários deveria vir acompanhada de uma campanha de educação no trânsito e um trabalho de sinalização de vias, para informar aos motoristas que ciclistas podem e devem circular nas ruas da nossa cidade. Nos cursos de habilitação não há sequer um parágrafo sobre proteger o ciclista, sobre o veículo maior sempre zelar pelo menor. Eventualmente, cita-se a legislação a ser decorada, sem explicá-la adequadamente. E a sinalização, quando existe, apenas proíbe a bicicleta, nunca comunica os motoristas sobre o compartilhamento da via, regulamenta seu uso ou indica caminhos alternativos para o ciclista. A ausência de sinalização deseduca os motoristas, porque não legitima a presença da bicicleta nas vias públicas.

A insistência em afirmar que as ruas serão seguras para as bicicletas somente quando houver milhares de quilômetros de ciclovias parece a desculpa usada por muitos motoristas para não deixar o carro em casa, ao dizerem “só mudarei meus hábitos quando tiver metrô na porta de casa”, enquanto continuam a congestionar e poluir o espaço público, esperando que outros resolvam seus problemas em vez de tomar a iniciativa para construir uma solução.

Não podemos e não vamos esperar. Precisamos usar nossas bicicletas já, dentro da lei e com segurança. Vamos desde já contribuir para melhorar a qualidade de vida da nossa cidade. Vamos liberar espaço no trânsito e não poluir o ar. Vamos fazer bem para a saúde (de todos) e compartilhar, com os que ainda não experimentaram, o prazer de pedalar. Com força e determinação, iremos construir nossos espaços nas cidades e ser a vanguarda de um futuro sustentável para as próximas gerações.

Preferimos crer que podemos fazer nossa cidade mais humana do que acreditar que a solução para os nossos problemas é alimentar a segregação com ciclovias. Existem alternativas mais rápidas e soluções que serão benéficas a todos, se pudermos nos unir para construirmos juntos uma cidade mais humana.

A rua é de todos. A cidade também."

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O gato não-invisível

Era sábado, dia de calor, muita gente passeando, casais, amigos em grupos animados. Pedalava eu na Liberdade, a Chinatown paulistana, observando o movimento, quando me atraiu uma pequena aglomeração defronte uma porta.
Acho que é automático desse animal social sentir essa atração pela massa, e meio distante, reduzi a velocidade para poder ver o que se passava ali. Mas logo a aglomeração se desfez, e pude ver claramente - para logo em seguida ser atraído para a porta.
Deitado na soleira, um gato preto.
Preto e peludo, via-se que não era um gato qualquer. Era um gato preto de rua em especial, exatamente por ser preto, e estar na rua sem dono, um gato de ninguém, preto e muito peludo. Mais especial ainda, por ter sido há pouco atropelado.
Sim, pois um mero gato preto é invisível aos olhos. Ou melhor, qualquer gato - ou até cachorro; que dirá passarinho. Aves canoras invisíveis para nossos ouvidos cegos.
Alheio em sua dor cegante, silente, o gato não-invisível não miava: salvava suas pequenas forças para aguentar firme, numa mostra de firmeza e fortitude que poucos humanos que conheci na vida conseguiram mostrar. Alheio, nem mesmo me notou olhando sua miséria felina.
Notem bem, neste ponto temos imperiosa a escolha: ou eu viro as costas e vou embora lamentando, ou eu faço o que puder para mudar o que eu vi.
Escolhas, escolhas... a vida é feita de escolhas, e elas acabam fazendo você. Então, fiz a escolha mais natural, óbvia, lógica.
Desci a rua à toda, de pé na bicicleta, em direção à Conselheiro Furtado, onde tinha certeza que encontraria um veterinário.
No primeiro, a veterinária tinha saído há pouco, e não iria voltar. Pena. Fui até o mais próximo, mas infelizmente encontrei uma comerciante - dentro de seu direito de sê-lo.
Voltava, cenho franzido mas longe de estar derrotado, já planejando voltar na primeira clínica, e solicitar gentilmente ao funcionário ligar no celular da Doutora, como emergência (que o era). Não foi necessário, uma senhora que comprava ração e ouviu meu relato acenava me chamando, e sorriu ao dizer que a veterinária havia voltado. Entrei e contei à ela o que vi, sem dar muitos detalhes. Ela pensou um pouco, me olhando nos olhos, e concordou, dispondo-se inclusive a pegar um transporte da clínica.
Subíamos a rua a pé, e eu explicando melhor, quando vimos um grupo de crianças carregando um engradado e algumas senhoras acompanhando. Era o grupo de socorro improvisado, trazendo o bichano (que agora miava desesperadamente devido aos inevitáveis sacolejos do caixote). Olhei cuidadosamente a veterinária, e percebi seu choque ao ver o estado dos ferimentos. Ela me olhou de volta, condoída, e disse: 'você tinha razão, vai ter que amputar a patinha dele...'.
Em poucos segundos, dialoguei com as senhoras, trocamos telefones, e combinamos de dividir a conta. A veterinária custeou os gastos de material, num gesto de dignidade profissional e desapego.
No final do dia, uma das senhoras, que trabalha no SAMU, ligou-me e contou que a cirurgia tinha corrido muito bem, e o gatinho já estava bem, com ela. Ela iria adotar o gatinho definitivamente. Desliguei o celular e sorri, satisfeito. Já podia deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.

Dra. Ana Paula, presenciei sua atenção e disposição para o trabalho à que se devotou. Que Deus faça na mesma medida quando você precisar. Muito obrigado, pois não foi só o gato que você curou e salvou ali. Em grande parte, foi a minha dor também, a minha paz de espírito.

Época em que humanos se dissociam de seu lado mais humano, em que é mais natural fotografar com o celular, ou filmar e colocar no Youtube, do que fazer alguma coisa; em que emulamos simpatia e não imaginamos o que significa empatia...

Alheios, repletos de dor e miséria, sentamos na soleira da porta, atropelados pelas dificuldades, sangrando, sujos, esfolados, mutilados, sem conseguir andar meio milímetro. Alheios e cegos, nem mesmo vemos o que temos à nossa volta, ignoramos os olhos que nos observam - como nós mesmos - sem nada fazer. Quantos gatos pretos, invisíveis! Todos no mesmo barco, julgando estar cada um no seu planeta, desvinculados do resto...

'O que eu posso fazer?' perguntamo-nos diversas vezes, eu incluso. Ora, eu posso qualquer coisa. Isso se aplica sempre que estão envolvidas situações de humanidade. Há o ponto de intersecção entre o que é bom e certo, e a prova real dessa área é a Regra de Ouro: 'faça pelos outros o que gostaria que fizessem a você' - ensinamento eterno de meu velho pai. A certeza de que eu posso fazer alguma coisa dá uma sensação concreta de segurança que só quem age assim sabe como é. Gostaria que todos tentassem ao menos uma vez, para ficarem viciados na sensação de plenitude depois de ajudar...

Não fiz nada, e tive tanto em troca... A tranquilidade de saber que aquele animalzinho não está mais sofrendo, na rua, está recebendo carinho, e as várias pessoas anônimas - como eu - que se uniram para fazer a diferença. Anônimos, que jamais vão se ver novamente, mas sempre vão lembrar do sábado de calor, em que um gato preto havia sido atropelado.