quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Feriado Nacional


Dia do palhaço:

PARABÉNS!!!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Ditadura dos suínos

Chuva.

Inferno de água que vem do céu... O Tietê expressou seu desagrado, como sempre (e coberto de razão, na minha opinião). Enfim, caos no trânsito.

Só no trânsito? Definitivamente não. O metrô no pico da manhã (ficou lírico, oras) já é tumultuado. Some a isso a falência dos transportes em dias de chuva torrencial, e temos o suplício sob a terra. Na transferência para a linha azul relembrei o Aurélio explanando o significado da expressão 'nem a pau'.

Posso falar do transporte público deficitário, do excesso de veículos, da quase ausência de planejamento urbano; mas não. Isso é, com o perdão do trocadilho, chover no molhado. Aqui nós saímos da zona de conforto, se está na chuva, é pra se molhar.

Prefiro lembrar os modos suínos de grande parcela da população.

Os suínos que jogam sofás, fogões, pneus, colchões, o bom senso, cadeiras, bujões de gás nos rios, córregos, represas, a meu ver não são diferentes dos suínos 'de classe' que jogam o papel de bala, a bituca de cigarro, o copo de milkshake ou refri do junkfood, a latinha de cerveja... Eles não se jogam do prédio; por quê?

Aí além de quem faz sua parte ser obrigado a viver na sujeira alheia, entopem os bueiros e aí pronto. Ora, é a ditadura dos suínos, meus caros!!

Infelizmente o exemplo dos que fazem a sua parte não é suficientemente eloqüente para atingir os suínos paulistanos (regra aplicável para a nação de suínos, invasores do Brasil-Ordem-E-Progresso). O que acaba sendo marcante é a sujeira deles em todo o lugar, mau cheiro e bueiros entupidos, com todo o lixo nadando bailarinamente nos trechos alagados.


Ditadura de suínos na terra da garoa potencializada!!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Ligeiras, pra atualizar 2

Vida atribulada, sem muito tempo livre.

Acompanhando o cenário brasileiro nas manchetes, com nojo, vergonha, com ar blasé. Nojo, ok?

Um dos vários pontos que não esqueci, e relembro a cada instante (já virou coleção) é o da farra das passagens aéreas, em abril deste ano. Até agora, o que aconteceu? Aconteceu Brasil, como sempre.

Vale refrescar a memória:



E tem gente que acha inadequado indignar-se...

Até segunda ordem, reservo-me este direito.

domingo, 29 de novembro de 2009

AC/DC no Morumbi - SP


Tarde de sexta-feira. Trânsito horrível, chuvas, buzinas. Sem problemas, o porvir faz praticamente tudo valer a pena.

Morumbi, noite. Após uma chuva torrencial vinda de um céu plúmbeo, alma lavada, pra não mais chover. Luzes apagam, inicia o show, acompanhado do urro ensurdecedor de 65.000 (sim, sessenta e cinco mil) vozes alucinadas.

Sim, senhoras e senhores, este que vos escreve era um dos que participaram da tradicional ritualística de culto musical.

Desnecessário relatar história, trajetória, nada disso. AC/DC é um caso à parte.

O que não posso deixar de fora é a energia e empolgação dos senhores da banda... estar na estrada desde os anos 70, e em 2009 tocarem sem pausa, praticamente emendando uma musica na outra, não é pra qualquer um.

Além da qualidade do som, Sir Angus e sua patota mostraram como é que se toca, como é que se faz um show de verdade. Já calvos, debulhando os instrumentos e passando um pique que, na minha opinião, existe em poucas bandas brasileiras - várias já findas...

Vou fazer o upload dos videos depois; por enquanto fiquem com as fotos.







Abraço pro Danyllo, meu irmão camaradíssmo.

Cansaço......

Já disse uma vez... tomo a liberdade de dizer de novo.

Perdeu a graça, sério.
Estava intrigado, não conseguia entender a razão do pessoal do programa televisivo em insistir em quadros falidos com o rapaz... até ver nos portais de notícia que estavam sofrendo um processo polpudo, e preferiram curvar-se a deixar o processo correr.

A verdade é que o programa televisivo tornou-se o diário do rapaz.

Agora, estréio o momento vaticínio deste blog:

Em breve, o concurso para conseguir uma namorada pra ele.

Por gentileza, alguém me traga o saco de vômito.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Liturgia para Érato 0

Como a inspiração é o ópio necessário, sento-me aqui, envolto em espessa fumaça.




"Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

    Eu não sei por quê,
    Meu desde onde venho,
    Sou o ser que vê,
    E vê tudo estranho.

    Põe a tua mão
    Sobre o meu cabelo...
    Tudo é ilusão.
    Sonhar é sabê-lo."

    _______________________________________________________________
    "Não quero rosas, desde que haja rosas.
    Quero-as só quando não as possa haver.
    Que hei-de fazer das coisas
    Que qualquer mão pode colher?

    Não quero a noite senão quando a aurora
    A fez em ouro e azul se diluir.
    O que a minha alma ignora
    É isso que quero possuir.

    Para quê?... Se o soubesse, não faria
    Versos para dizer que inda o não sei.
    Tenho a alma pobre e fria...
    Ah, com que esmola a aquecerei?..."

    Fernando Pessoa, 7-1-1935.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Inominado 0

O metrô em movimento, eu olhando para fora.
Árvores, prédios, carros, pessoas, nuvens, pássaros...
Num relâmpago, eu fui árvores, prédios, carros, pessoas, nuvens, pássaros ao longe, olhando aquele cara na janelinha do metrô passando, pequenino...

E quando me senti tão pequeno, diminuto, me senti pleno, completo, feliz.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Manifesto dos invisíveis

Já é corrente na internet o Manifesto dos Invisíveis, e seria uma falha grosseira ele não estar postado aqui.
A verdade é que estamos tão 'ensimesmados' - como diria um luminar de nossa literatura - que muitas vezes não empregamos um momento para ser empáticos... Tenho habilitação, mas sou ciclista por opção e paixão. Atrás do volante, ainda assim sou ciclista e pedestre, e não ocorre a simbiose de nosso tempo: homem-veículo automotor.
O bom senso que costumo defender também tem outro nome, e é a palavra de ordem do manifesto. Bom senso vem em tamanho único, unissex, e todos adoram receber...

Peço desculpas apenas por não postar a lista dos subscritores, pois ela varia de blog para blog, devido à constante atualização. Mas fica a dica de fazer uma busca, e ler alguns nomes.

Notem entre eles o nome da Márcia Regina, falecida em janeiro... Ela terá uma postagem só para ela, em breve.



"Manifesto dos Invisíveis

Motorista, o que você faria se dissessem que você só pode dirigir em algumas vias especiais, porque seu carro não possui airbags? E que, onde elas não existissem, você não poderia transitar?

Para nós, cidadãos que utilizamos a bicicleta como meio de transporte, é esse o sentimento ao ouvir que “só será seguro pedalar em São Paulo quando houver ciclovias”, ou que “a bicicleta atrapalha o trânsito”. Precisamos pedalar agora. E já pedalamos! Nós e mais 300 mil pessoas, diariamente. Será que deveríamos esperar até 2020, ano em que Eduardo Jorge (secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo) estima que teremos 1.000 quilômetros de ciclovias? Se a cidade tem mais de 17 mil quilômetros de vias, pelo menos 94% delas continuarão sem ciclovia. Como fazer quando precisarmos passar por alguma dessas vias? Carregar a bicicleta nas costas até a próxima ciclovia? Empurrá-la pela calçada?

Ciclovia é só uma das possibilidades de infra-estrutura existentes para o uso da bicicleta. Nosso sistema viário, assim como a cidade, foi pensado para os carros particulares e, quando não ignora, coloca em segundo plano os ônibus, pedestres e ciclistas. Não precisamos de ciclovias para pedalar, assim como os carros e os caminhões não precisam ser separados. O ciclista tem o direito legal de pedalar por praticamente todas as vias e tem preferência, garantida pelo Código de Trânsito Brasileiro, sobre todos os veículos motorizados. A evolução do ciclismo como transporte é marca de cidadania na Europa e de funcionalidade na China. Já temos, mesmo na América do Sul, um grande exemplo de soluções criativas: Bogotá.

Não clamamos por ciclovias, clamamos por respeito. As leis de trânsito colocam em primeiro plano o respeito à vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que assusta e agride.

A recente iniciativa do Metrô de São Paulo de emprestar bicicletas e oferecer bicicletários é importante. Atende a uma carência que é relegada pelo poder público: a necessidade de espaço seguro para estacionar as bikes. Em vez de ciclovias, a instalação de bicicletários deveria vir acompanhada de uma campanha de educação no trânsito e um trabalho de sinalização de vias, para informar aos motoristas que ciclistas podem e devem circular nas ruas da nossa cidade. Nos cursos de habilitação não há sequer um parágrafo sobre proteger o ciclista, sobre o veículo maior sempre zelar pelo menor. Eventualmente, cita-se a legislação a ser decorada, sem explicá-la adequadamente. E a sinalização, quando existe, apenas proíbe a bicicleta, nunca comunica os motoristas sobre o compartilhamento da via, regulamenta seu uso ou indica caminhos alternativos para o ciclista. A ausência de sinalização deseduca os motoristas, porque não legitima a presença da bicicleta nas vias públicas.

A insistência em afirmar que as ruas serão seguras para as bicicletas somente quando houver milhares de quilômetros de ciclovias parece a desculpa usada por muitos motoristas para não deixar o carro em casa, ao dizerem “só mudarei meus hábitos quando tiver metrô na porta de casa”, enquanto continuam a congestionar e poluir o espaço público, esperando que outros resolvam seus problemas em vez de tomar a iniciativa para construir uma solução.

Não podemos e não vamos esperar. Precisamos usar nossas bicicletas já, dentro da lei e com segurança. Vamos desde já contribuir para melhorar a qualidade de vida da nossa cidade. Vamos liberar espaço no trânsito e não poluir o ar. Vamos fazer bem para a saúde (de todos) e compartilhar, com os que ainda não experimentaram, o prazer de pedalar. Com força e determinação, iremos construir nossos espaços nas cidades e ser a vanguarda de um futuro sustentável para as próximas gerações.

Preferimos crer que podemos fazer nossa cidade mais humana do que acreditar que a solução para os nossos problemas é alimentar a segregação com ciclovias. Existem alternativas mais rápidas e soluções que serão benéficas a todos, se pudermos nos unir para construirmos juntos uma cidade mais humana.

A rua é de todos. A cidade também."

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O gato não-invisível

Era sábado, dia de calor, muita gente passeando, casais, amigos em grupos animados. Pedalava eu na Liberdade, a Chinatown paulistana, observando o movimento, quando me atraiu uma pequena aglomeração defronte uma porta.
Acho que é automático desse animal social sentir essa atração pela massa, e meio distante, reduzi a velocidade para poder ver o que se passava ali. Mas logo a aglomeração se desfez, e pude ver claramente - para logo em seguida ser atraído para a porta.
Deitado na soleira, um gato preto.
Preto e peludo, via-se que não era um gato qualquer. Era um gato preto de rua em especial, exatamente por ser preto, e estar na rua sem dono, um gato de ninguém, preto e muito peludo. Mais especial ainda, por ter sido há pouco atropelado.
Sim, pois um mero gato preto é invisível aos olhos. Ou melhor, qualquer gato - ou até cachorro; que dirá passarinho. Aves canoras invisíveis para nossos ouvidos cegos.
Alheio em sua dor cegante, silente, o gato não-invisível não miava: salvava suas pequenas forças para aguentar firme, numa mostra de firmeza e fortitude que poucos humanos que conheci na vida conseguiram mostrar. Alheio, nem mesmo me notou olhando sua miséria felina.
Notem bem, neste ponto temos imperiosa a escolha: ou eu viro as costas e vou embora lamentando, ou eu faço o que puder para mudar o que eu vi.
Escolhas, escolhas... a vida é feita de escolhas, e elas acabam fazendo você. Então, fiz a escolha mais natural, óbvia, lógica.
Desci a rua à toda, de pé na bicicleta, em direção à Conselheiro Furtado, onde tinha certeza que encontraria um veterinário.
No primeiro, a veterinária tinha saído há pouco, e não iria voltar. Pena. Fui até o mais próximo, mas infelizmente encontrei uma comerciante - dentro de seu direito de sê-lo.
Voltava, cenho franzido mas longe de estar derrotado, já planejando voltar na primeira clínica, e solicitar gentilmente ao funcionário ligar no celular da Doutora, como emergência (que o era). Não foi necessário, uma senhora que comprava ração e ouviu meu relato acenava me chamando, e sorriu ao dizer que a veterinária havia voltado. Entrei e contei à ela o que vi, sem dar muitos detalhes. Ela pensou um pouco, me olhando nos olhos, e concordou, dispondo-se inclusive a pegar um transporte da clínica.
Subíamos a rua a pé, e eu explicando melhor, quando vimos um grupo de crianças carregando um engradado e algumas senhoras acompanhando. Era o grupo de socorro improvisado, trazendo o bichano (que agora miava desesperadamente devido aos inevitáveis sacolejos do caixote). Olhei cuidadosamente a veterinária, e percebi seu choque ao ver o estado dos ferimentos. Ela me olhou de volta, condoída, e disse: 'você tinha razão, vai ter que amputar a patinha dele...'.
Em poucos segundos, dialoguei com as senhoras, trocamos telefones, e combinamos de dividir a conta. A veterinária custeou os gastos de material, num gesto de dignidade profissional e desapego.
No final do dia, uma das senhoras, que trabalha no SAMU, ligou-me e contou que a cirurgia tinha corrido muito bem, e o gatinho já estava bem, com ela. Ela iria adotar o gatinho definitivamente. Desliguei o celular e sorri, satisfeito. Já podia deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.

Dra. Ana Paula, presenciei sua atenção e disposição para o trabalho à que se devotou. Que Deus faça na mesma medida quando você precisar. Muito obrigado, pois não foi só o gato que você curou e salvou ali. Em grande parte, foi a minha dor também, a minha paz de espírito.

Época em que humanos se dissociam de seu lado mais humano, em que é mais natural fotografar com o celular, ou filmar e colocar no Youtube, do que fazer alguma coisa; em que emulamos simpatia e não imaginamos o que significa empatia...

Alheios, repletos de dor e miséria, sentamos na soleira da porta, atropelados pelas dificuldades, sangrando, sujos, esfolados, mutilados, sem conseguir andar meio milímetro. Alheios e cegos, nem mesmo vemos o que temos à nossa volta, ignoramos os olhos que nos observam - como nós mesmos - sem nada fazer. Quantos gatos pretos, invisíveis! Todos no mesmo barco, julgando estar cada um no seu planeta, desvinculados do resto...

'O que eu posso fazer?' perguntamo-nos diversas vezes, eu incluso. Ora, eu posso qualquer coisa. Isso se aplica sempre que estão envolvidas situações de humanidade. Há o ponto de intersecção entre o que é bom e certo, e a prova real dessa área é a Regra de Ouro: 'faça pelos outros o que gostaria que fizessem a você' - ensinamento eterno de meu velho pai. A certeza de que eu posso fazer alguma coisa dá uma sensação concreta de segurança que só quem age assim sabe como é. Gostaria que todos tentassem ao menos uma vez, para ficarem viciados na sensação de plenitude depois de ajudar...

Não fiz nada, e tive tanto em troca... A tranquilidade de saber que aquele animalzinho não está mais sofrendo, na rua, está recebendo carinho, e as várias pessoas anônimas - como eu - que se uniram para fazer a diferença. Anônimos, que jamais vão se ver novamente, mas sempre vão lembrar do sábado de calor, em que um gato preto havia sido atropelado.

domingo, 4 de outubro de 2009

Bicicleta e cerol...



Desde 2007 pelo menos, percebi que ciclista e motociclista (também) estão em situação análoga em relação ao cerol nas linhas de pipa. Fui até uma loja de motopeças, e pedi para instalar na minha bicicleta. Não custou mais do que R$ 15,00 e eu conversei com os rapazes, e a instalação foi cortesia (você pode instalar em casa também - recomendo colocar uma tirinha de câmara de pneu entre o guidão e o afixador da antena). Pense antes de reclamar do preço ou da utilidade, quando você gastou aquela mixaria no câmbio shimano da sua bike...

Com o aumento do número de bicicletas, acredito que não vá demorar até que apareça um caso ou outro de ciclista cortado. Já existe legislação proibindo o uso de cerol, a 12.192/2006, mas já temos o exemplo brasiliense de que mesmo proibido, pode fazer que dá em pizza.

Não posso calar, também, que o crescimento desenfreado de ciclistas apesar de ser bom para o cicloativismo, tem seu lado maligno: ciclistas ignorantes. Tenho observado nas ruas, e são pessoas comuns, como eu e você, mas completamente alheias aos perigos que se expõem ao pedalar de qualquer jeito nas ruas.

Tenho um livro -excelente, por sinal - do Sérgio Beck. Fala sobre as manhas e macetes para ciclistas em pedaladas gostosas, ao ar livre. Lamento apenas não existir um livro para o ciclista urbano... pedalar na cidade tem regras também, que só dependem de você (maior interessado em manter-se íntegro) como sinalizar ao fazer curvas, não acreditar que você possui poderes sobrenaturais de invencibilidade, equipamentos de segurança, observar o terreno que você passa (sim, para não cair e ser atropelado pelo ônibus atrás de você) e por aí vai. Em tempo, antes de ser fomentado o dia-sem-carro-bicicleta-é-a-saída, ou fazer num domingo um passeio eleitoreiro, o sr. prefeito deveria arregaçar as mangas e botar a mão na massa, e adequar ruas e avenidas para quem USA a bicicleta, e não só quem passeia. Ah, eu já falei que as 'ciclovias' existentes não são ciclovias? Pois é, não são.

Acredito que falte também uma Associação ou uma ong, que crie um explicativo sobre ciclismo urbano, para informar os ciclistas desavisados que estão pululando pela cidade. Senão, corremos o risco de passarmos a ser vistos mais ainda como empecilhos.

Enfim, fica mais feio você com um corte enorme no rosto/deitado plácido entre flores, ou sua bicicleta com uma antena para cortar a linha de pipa?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ligeiras, pra atualizar

- Dia sem carro, sem bicicleta, mas com guarda-chuva, com trânsito, com atrasos. Quase tão funcional quanto fazer uma feijoada numa frigideira.

- Pedalar em São Paulo é brincar, sozinho, de roleta russa. Contar com a educação e respeito de outrem, e resguardar-se da ignorância de alguns, só com uma boa pitada de fé mesmo.

- Brasília: tanto aqui, como nas relações exteriores, sem comentários, sob pena de ser agressivo.

- Na boa, chega de 'Ronaldo'. Sério. Perdeu a graça.

- Antes que me esqueça, uma tomatada na Câmara, em sua tacanha homenagem ao Zina. Quer que eu ponha na rua o saco de lixo cheio de notáveis que deveriam ser laureados e vocês desprezaram?

domingo, 23 de agosto de 2009

Cidadania - a falácia do voto eletrônico seguro?

Poucos sabem, mas é incorreto dizer 'exerça sua cidadania' em qualquer contexto que não o de votar e ser votado em eleições democráticas.

Um salva de palmas para a democracia, nada mais adequado para a civilização.

E é nesse sentido que eu ouso ventilar um assunto tido como imaculado.

A urna eletrônica.

A meu ver, a urna eletrônica nunca foi prova de eleições claras, exemplares e democráticas. Com o perdão da palavra (e é minha opinião, não meu dogma), num país que seja necessário um aparelho coloridinho, que toca musiquinha, que aparece a face do candidato para que o cidadão consiga votar, é sinal de extrema ignorância e de incapacidade. É presumir que o povo brasileiro seja tão débil, que necessita de todos esses recursos. Para quem nao lembra, pense bem...

Além disso, sempre disse, nas rodas com amigos, que não temos prova nenhuma de que votamos no candidato 'x' ou 'y'. Claro, você apertou as teclinhas coloridas, viu lá a foto chiquê do seu candidato, ouviu a musiquinha, mas que prova tem você de que seu voto foi registrado?

Essas dúvidas sempre me assombraram, em cada vez que eu me escondia atrás do papelão para votar; lá estava a sombra da dúvida, sorrindo escarnecedora. E eu saía me sentindo enganado.

Isso sempre se repetiu (os votos e os debates), até que um dia eu encontrei este site: http://www.votoseguro.org/ Li e revirei o mesmo inteiro, e fiquei feliz de perceber que eu não era o único que questionava o assunto. Encontrei as minhas interrogações e muitas outras.

Você é o brasileiro que questiona tudo, ou é o brasileirinho típico que acredita em tudo que te botam na cara? Questione, oras; o debate é salutar. Não defendo manifestações violentas, pedras, molotov... é apenas o debate, a troca de idéias com bom senso - e bom senso inexiste no assunto das urnas eletrônicas, na minha opinião.

Além disso, não me parece inteligente dizer 'votei neste pois não tinha opção melhor'. Ora, você casaria com qualquer mulher, só por não ter encontrado nenhuma melhor? Comeria qualquer coisa, só por não encontrar nada melhor? Você moça, passaria qualquer produto no rosto, só por não encontrar nada melhor? Acredito que não. Bom, sou apartidário, e até hoje procuro alguém com idéias decentes na política. Mas, tudo que vejo é 'jeitinho'.

Agora vou te dar duas pílulas (olha que democrático): você pode entrar no site do voto seguro e ler e tirar suas conclusões, ou pode clicar no 'x' no canto superior direito e voltar para a novela ou para os gols da rodada. (ah, a propósito, isso você não vai ver na novela: http://www.uhull.com.br/01/30/india-isso-voce-nao-vai-ver-na-globo-e-claro-imagens-chocantes/#comment-215276 visite por sua conta e risco - créditos ao pessoal do uhull).

Boa sorte nas próximas eleições.

Comentários esparsos 2

Só para deixar registrada a minha insatisfação em relação à situação atual em meu país. A turma lá de Brasília ta bem afinada... Nem vou comentar; qualquer um que esteja vivendo aqui sabe do que estou dizendo.
Tem mais: eu estou anotando tudo, ok? Tenho uma memória excelente.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Mês do cachorro louco

Como estamos no mês do cachorro louco (e este que vos posta esta missiva está incluso no efeito), acho interessante abordar um tema que quase sempre é tratado com frufrus: animais de estimação - e seus donos humanos (sim, isso as vezes é pejorativo; as muitas exceções podem retornar aos seus lugares).

De plano deixo claro que cada um faz o que quer da vida, e vou morrer defendendo sua liberdade e seu livre-arbítrio. Mas ter liberdade não implica em ser inconsequente, senão vira libertinagem. E convenhamos, ser inconsequente quando isso implica em sofrimento para quem não tem chance de defesa, ou de se virar sozinho, pra mim é coisa de quem foi concebido no mais baixo meretrício, usando um eufemismo explícito.

Vale a regra de ouro (que não é de hoje): Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você. E creia, se os papéis se invertessem, eles cuidariam muito bem de você.

Você decidiu ter um bichinho? Ótimo! Está ciente da 'manutenção' da coisa? Sim, e mesmo assim quer ter, excelente. Mas não compre: ADOTE. Por aí tem muito bichinho fofo/brincalhão/calmo/companheiro/de guarda/divertido esperando pra ser adotado. Não sabe onde tem? vou passar umas sugestões nuns links no final.

Saiba que maus tratos é CRIME, pela Lei Federal 9.605/98, em seu art. 32. Segue:

"Artigo 32 da Lei Federal nº. 9.605/98

É considerado crime praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, doméstico ou domesticados, nativos ou exóticos.

Pena - Detenção de 3 (três) meses a 1 (um) ano e multa.

Parágrafo 1°. - Incorre nas mesmas Penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animais vivos, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.

Parágrafo 2°. - A Pena é aumentada de 1 (um) terço a 1(um) sexto, se ocorrer a morte do(s) animal(s)."

Ah, cortar o rabo do seu cachorro, ou as orelhas, é mutilação, tá? Isso inclui a coleira cretina que dá choque no cachorro se ele latir. Deixar o animal sem comida ou água, sem comentários. Ela está num estado que você não consumiria? então troque, infeliz.

Pra resumir, vou colocar aqui algumas idéias que defendemos, e a primeira delas é a das cinco liberdades dos animais:

1- livre de medo e estresse
2- livre de fome e sede
3- livre de desconforto
4- livre de dor e de doenças
5- livre para expressar seu comportamento natural

Acho que não precisa nem comentar.

Quanto à posse responsável (salva de palmas à ARCA Brasil, e a todos que lutam pela causa), tomo a licença para colar aqui:

Os Dez Mandamentos ARCA Brasil da
Posse Responsável de Cães e Gatos

Antes de adquirir um animal, considere que seu tempo médio de vida é de 12 anos. Pergunte à família se todos estão de acordo, se há recursos necessários para mantê-lo e verifique quem cuidará dele nas férias ou em feriados prolongados.

Adote animais de abrigos públicos e privados (vacinados e castrados), em vez de comprar por impulso.

Informe-se sobre as características e necessidades da espécie escolhida – tamanho, peculiaridades, espaço físico.

Mantenha o seu animal sempre dentro de casa, jamais solto na rua. Para os cães, passeios são fundamentais, mas apenas com coleira/guia e conduzido por quem possa contê-lo.

Cuide da saúde física do animal. Forneça abrigo, alimento, vacinas e leve-o regularmente ao veterinário. Dê banho, escove e exercite-o regularmente.

Zele pela saúde psicológica do animal. Dê atenção, carinho e ambiente adequado a ele.

Eduque o animal, se necessário, por meio de adestramento, mas respeite suas características.

Recolha e jogue os dejetos (cocô) em local apropriado.

Identifique o animal com plaqueta e registre-o no Centro de Controle de Zoonoses ou similar, informando-se sobre a legislação do local. Também é recomendável uma identificação permanente (microchip ou tatuagem).

Evite as crias indesejadas de cães e gatos. Castre os machos e fêmeas. A castração é a única medida definitiva no controle da procriação e não tem contra-indicações.



Acho uma iniciativa excelente, e que deve ser levada adiante.

E se você presenciar alguma situação de maus tratos a animais, não seja um covarde omisso conivente com o criminoso, denuncie mesmo. Ligue 190 e solicite que uma viatura compareça e autue em flagrante o 'machão'.

E digo mais, pra abreviar a coisa, saiba que você pode dar voz de prisão em flagrante ao indivíduo na hora. Pois para judiar de bichinhos, eles são machos; depois, é só dotô, sinhô... bom, vou parar. Sou bastante convicto a respeito disso, e só vou mudar minha opinião quando me convencerem que é divertido se divertir com o sofrimento de animais.

Mas voltando a você cidadão amável que quer um amigo, um companheiro, adote. Alguns já são até vacinados, ou castrados. Quem tem bichinho sabe o que eles dão em retorno...

Existem alguns sites muito bacanas pra se navegar, que são sérios, e trazem muita informação útil pra quem tem bichinho. Todos eles tem a opção de adoção e denúncia a maus tratos. Vou postar apenas três, repetindo que todo comentário útil será bem vindo.

Vale a pena dar uma passada por lá.

ARCA Brasil: http://www.arcabrasil.org.br/
- link para os mandamentos da posse responsável:
http://www.arcabrasil.org.br/acoes/posse/mandamentos.htm

Projeto CEL: http://www.projetocel.org.br/

Projeto Esperança Animal: http://www.pea.org.br/


quinta-feira, 23 de julho de 2009

Metrô e E. A. Poe

Esta semana eu usei uma máscara no metrô. Vagão cheio: cheio de gente, cheio de tosse, cheio de janelas fechadas, cheio de coriza, e em breve, eu - cheio de paranóia... rs

Decidi experimentar usar uma máscara. A despeito da afirmação (cretina, a meu ver) de alguns que somente devem usar a máscara os que estão infectados, resolvi usar por prevenção. Cretina, pois 'per analogiam', se fossemos seguir a mesma lógica em relação à AIDS, bem... não preciso continuar.

Então ao avistar o próximo trem, ajeitei a máscara no rosto, e assim que ele abriu suas portas eu entrei.

Quis experimentar a máscara, e acabei experimentando a sensação de personificar a Morte. O vagão, até então cheio também de conversas animadas, corriqueiras, fofoqueiras, pouco a pouco deu lugar ao silêncio. Entrei mudo e saí calado, mas durante as quatro estações que estive dentro do vagão, até a metade deste fez-se silêncio, e as pessoas me fitavam entre curiosas e tensas. Ali, eu era o lembrete silencioso da gripe em voga.

No recôndito, este cômodo tão cômodo e privativo da alma, percebi a imagem que causava ali, e isso me incomodou um pouco. Impossível, senhores, não lembrar de Edgar Allan Poe, no seu famoso conto 'A máscara da Morte Escarlate'. Naquele vagão, eu me senti um ator incidental numa representação burlesca desse conto...

Para quem não conhece, peço licença para colocar abaixo dita estória:

"

A Máscara da Morte Escarlate

Edgar Allan Poe


A "Morte Escarlate" havia muito devastava o país. Jamais se viu peste tão fatal ou tão hedionda. O sangue era sua revelação e sua marca a cor vermelha e o horror do sangue. Surgia com dores agudas e súbita tontura, seguidas de profuso sangramento pelos poros, e então a morte. As manchas rubras no corpo e principalmente no rosto da vítima eram o estigma da peste que a privava da ajuda e compaixão dos semelhantes. E entre o aparecimento, a evolução e o fim da doença não se passava mais de meia hora.

Mas o príncipe Próspero era feliz, destemido e astuto. Quando a população de seus domínios se reduziu à metade, mandou vir à sua presença um milhar de amigos sadios e divertidos dentre os cavalheiros e damas da corte e com eles retirou-se, em total reclusão, para um dos seus mosteiros encastelados. Era uma construção imensa e magnífica, criação do gosto excêntrico, mas grandioso do próprio príncipe. Circundava-a a muralha forte e muito alta, com portas de ferro. Depois de entrarem, os cortesãos trouxeram fornalhas e grandes martelos para soldar os ferrolhos. Resolveram não permitir qualquer meio de entrada ou saída aos súbitos impulsos de desespero do que estavam fora ou aos furores do que estavam dentro. O mosteiro dispunha de amplas provisões. Com essas precauções, os cortesãos podiam desafiar o contágio. O mundo externo que cuidasse de si mesmo. Nesse meio-tempo era tolice atormentar-se ou pensar nisso. O príncipe havia providenciado toda a espécie de divertimentos. Havia bufões, improvisadores, dançarinos, músicos, Beleza, vinho. Lá dentro, tudo isso mais segurança. Lá fora, a "Morte Escarlate".

Lá pelo final do quinto ou sexto mês de reclusão, enquanto a peste grassava mais furiosamente lá fora, o príncipe Próspero brindou os mil amigos com um magnífico baile de máscaras.

Era um espetáculo voluptuoso, aquela mascarada. Mas antes vou descrever onde ela aconteceu. Eram sete um suíte imperial. Em muitos palácios, porém, essas suítes formam uma perspectiva longa e reta, quando as portas se abrem até se encostarem nas paredes de ambos os lados, de tal modo que a vista de toda essa sucessão é quase desimpedida. Ali, a situação era muito diferente, como se devia esperar da paixão do duque pelo fantástico. Os salões estavam dispostos de maneira tão irregular que os olhos só podiam abarcar pouco mais de cada um por vez. Havia um desvio abrupto a cada vinte ou trinta metros e, a cada desvio, um efeito novo. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica dava para um corredor fechado que acompanhava as curvas da suíte. A cor dos vitrais dessas janelas variava de acordo com a tonalidade dominante na decoração do salão para o qual se abriam. O da extremidade leste, por exemplo, era azul e de um azul intenso eram suas janelas. No segundo salão os ornamentos e tapeçarias, assim como as vidraças, eram cor de púrpura. O Terceiro era inteiramente verde, e verdes também os caixilhos das janelas. O quarto estava mobiliado e iluminado com cor alaranjada o quinto era branco, e o sexto, roxo. O sétimo salão estava todo coberto por tapeçarias de veludo negro, que pendiam do teto e pelas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade. Apenas nesse salão, porém, a cor das janelas deixava de corresponder à das decorações. AS vidraças, ali, eram escarlates uma violenta cor de sangue.

Ora, em nenhum dos sete salões havia qualquer lâmpada ou candelabro, em meio à profusão de ornamentos de ouro espalhados por todos os cantos ou dependurados do teto. Nenhuma lâmpada ou vela iluminava o interior da seqüência de salões. Mas nos corredores que circundavam a suíte havia, diante de cada janela, um pesado tripé com um braseiro, que projetava seus raios pelos vitrais coloridos e, assim, iluminava brilhantemente a sala, produzindo grande número de efeitos vistosos e fantásticos. Mas no salão oeste, ou negro, o efeito do clarão de luz que jorrava sobre as cortinas escuras através das vidraças da cor do sangue era desagradável ao extremo e produzia uma expressão tão desvairada no semblante do que entravam que poucos no grupo sentiam ousadia bastante para ali penetrar.

Era também nesse apartamento que se achava, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um bater surdo, pesado, monótono; quando o ponteiro dos minutos completava o circuito do mostrador e o relógio ia dar as horas, de seus pulmões de bronze brotava um som claro e alto e grave e extremamente musical, mas em tom tão enfático e peculiar que, ao final de cada hora, os músicos da orquestra se viam obrigados a interromper momentaneamente a apresentação para escutar-lhe o som; com isso os dançarinos forçosamente tinham de parar as evoluções da valsa e, por um breve instante, todo o alegre grupo mostrava-se perturbado; enquanto ainda soavam os carrilhões do relógio, observava-se que os mais frívolos empalideciam e os mais velhos e serenos passavam a mão pela teste, como se estivessem num confuso devaneio ou meditação. Mas, assim que os ecos desapareciam interiormente, risinhos levianos logo se riam do próprio nervosismo e insensatez e, em sussurros, diziam uns aos outros que o próximo soar de horas não produziria neles a mesma emoção; mas, após um lapso de sessenta minutos (que abrangem três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), quando o relógio dava novamente as horas, acontecia a mesma perturbação e idênticos tremores e gestos de meditação de antes.

Apesar disso tudo, que festa alegre e magnífica! Os gosto do duque eram estranhos. Sabia combinar cores e efeitos. Menosprezando a mera decoração da moda, seus arranjos mostravam-se ousados e veementes, e suas idéias brilhavam com um esplendor bárbaro. Alguns podiam considerá-lo louco, sendo desmentidos por seus seguidores. Mas era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para convencer-se disso.

Para essa grande festa, ele próprio dirigiu, em grande parte, a ornamentação cambiante dos sete salões, e foi seu próprio gosto que inspirou as fantasias dos foliões. Claro que eram grotescas. Havia muito brilho, resplendor, malícia e fantasia muito daquilo que foi visto depois no Hernani. Havia figuras fantásticas com membros e adornos que não combinavam. Havia caprichos delirantes como se tivessem sido modelados por um louco. Havia muito de beleza, muito de libertinagem e de extravagância, algo de terrível e um tanto daquilo que poderia despertar repulsa. De um ao outro, pelos sete salões, desfilava majestosamente, na verdade, uma multidão de sonhos. E eles os sonhos giravam sem parar, assumindo a cor de cada salão e fazendo com que a impetuosa música da orquestra parecesse o eco de seus passos. Daí a pouco soa o relógio de ébano colocado no salão de veludo. Então, por um momento, tudo se imobiliza e é tudo silêncio, menos a voz do relógio. Os sonhos se congelam como estão. Mas os ecos das batidas extinguem-se duraram apenas um instante e risos levianos, mal reprimidos, flutuam atrás dos ecos, à medida que vão morrendo. E logo a música cresce de novo, e os sonhos revivem e rodopiam mais alegremente que nunca, assumindo as cores das muitas janelas multicoloridas, através das quais fluem os raios luminosos dos tripés. Ao salão que fica a mais oeste de todos os sete, porém, nenhum dos mascarados se aventura agora; pois a noite está se aproximando do fim: ali flui uma luz mais vermelha pelos vitrais cor de sangue e o negror das cortinas escuras apavora; para aquele que pousa o pé no tapete negro, do relógio de ébano ali perto chega um clangor ensurdecido mais solene e enfático que aquele que atinge os ouvidos dos que se entregam às alegrias nos salões mais afastados.

Mas nesses outros salões cheios de gente batia febril o coração da vida. E o festim continuou em remoinhos até que, afinal, começou a soar meia-noite no relógio. Então a música cessou, como contei, as evoluções dos dançarinos se aquietaram, e, como antes, tudo ficou intranqüilamente imobilizado. Mas agora iriam ser doze as badaladas do relógio; e desse modo mais pensamentos talvez tenham se infiltrado, por mais tempo, nas meditações dos mais pensativos, entre aqueles que se divertiam. E assim também aconteceu, talvez, que, antes de os últimos ecos da última badalada terem mergulhado inteiramente no silêncio, muitos indivíduos na multidão puderam perceber a presença de uma figura mascarada que antes não chamara a atenção de ninguém. E, ao se espalhar em sussurros o rumor dessa nova presença, elevou-se aos poucos de todo o grupo um zumbido ou murmúrio que expressava a reprovação e surpresa e, finalmente, terror, horror e repulsa.

Numa reunião de fantasmas como esta que pintei, pode-se muito bem supor que nenhuma aparência comum poderia causar tal sensação. Na verdade, a liberdade da mascarada dessa noite era praticamente ilimitada; mas a figura em questão ultrapassava o próprio Herodes, indo além dos limites até do indefinido decoro do príncipe. Existem cordas, nos corações dos mais indiferentes, que não podem ser tocadas sem emoção. Até para os totalmente insensíveis, para quem a vida e morte são alvo de igual gracejo, existem assuntos com os quais não se pode brincar. Na verdade, todo o grupo parecia agora sentir profundamente que na fantasia e no rosto do estranho não existia graça nem decoro. A figura era alta e esquálida, envolta do pés a cabeça em veste mortuárias. A máscara que escondia o rosto procurava assemelhar-se de tal forma com a expressão enrijecida de um cadáver que até mesmo o exame mais atento teria dificuldade em descobrir o engano. Tudo isso poderia ter sido tolerado, e até aprovado, pelos loucos participantes da festa, se o mascarado não tivesse ousado encarnar o tipo da Morte Escarlate. Seu vestuário estava borrifado de sangue e sua alta testa, assim como o restante do rosto, salpicada com o horror escarlate.

Quando os olhos do príncipe Próspero pousaram nessa imagem espectral (que andava entre os convivas com movimentos lentos e solenes, como se quisesse manter-se à altura do papel), todos perceberam que ele foi assaltado por um forte estremecimento de terror ou repulsa, num primeiro momento, mas logo o seu semblante tornou-se vermelho de raiva.

- Quem ousa... perguntou com voz rouca aos convivas que estavam perto quem ousa nos insultar com essa caçoada blasfema? Peguem esse homem e tirem sua máscara, para sabermos quem será enforcado no alto dos muros, ao amanhecer!

O príncipe Próspero estava na sala leste, ou azul, ao dizer essas palavras. Elas ressoaram pelos sete salões, altas e claras, pois o príncipe era um homem ousado e robusto e a música se calara com um sinal de sua mão.

O príncipe achava-se no salão azul com um grupo de pálidos convivas ao seu lado. Assim que falou, houve um ligeiro movimento dessas pessoas na direção do intruso, que, naquele momento, estava bem ao alcance das mãos, e agora, com passos decididos e firmes, se aproximava do homem que tinha falado. Mas por causa de um certo temor sem nome, que a louca arrogância do mascarado havia inspirado em toda a multidão, não houve ninguém que estendesse a mão para detê-lo; de forma que, desimpedido , passou a um metro do príncipe e, enquanto a vasta multidão, como por um único impulso, se retraía do centro das salas para as paredes, ele continuou seu caminho sem deter-se, no mesmo passo solene e medido que o distinguira desde o inicio, passando do salão azul para o púrpura do púrpura para o verde do verde para o alaranjado e desse ainda para o branco e daí para o roxo, antes que se fizesse qualquer movimento decisivo para dete-lo. Foi então que o príncipe Próspero, louco de raiva e vergonha por sua momentânea covardia, correu apressadamente pelos seis salões, sem que ninguém o seguisse por causa do terror mortal que tomara conta de todos. Segurando bem alto um punhal desembainhado, aproximou-se, impetuosamente, até cerca de um metro do vulto que se afastava, quando este, ao atingir a extremidade do salão de veludo, virou-se subitamente e enfrentou seu perseguidor. Ouviu-se um grito agudo e o punhal caiu cintilando no tapete negro, sobre o qual, no instante seguinte, tombou prostrado de morte o príncipe Próspero. Então, reunindo a coragem selvagem do desespero, um bando de convivas lançou-se imediatamente no apartamento negro e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, soltou um grito de pavor indescritível, ao descobrir que, sob a mortalha e a máscara cadavérica, que agarravam com tamanha violência e grosseria, não havia qualquer forma palpável.

E então reconheceu-se a presença da Morte Escarlate. Viera como um ladrão na noite. E um a um foram caindo os foliões pelas salas orvalhadas de sangue, e cada um morreu na mesma posição de desespero em que tombou no chão. E a vida do relógio de Ébano dissolveu-se junto com a vida do último dos dissolutos. E as chamas dos braseiros extinguiram-se. E o domínio ilimitado das Trevas, da Podridão e da Morte Escarlate estendeu-se sobre tudo."

Há, claro, a interpretação mais elaborada desse conto, que é a grande beleza dele, mas que não cabe aqui.

Abraços.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Hanami

No Japão, mais ou menos no começo de abril, as flores de cerejeira começam a florescer. Desabrocham num curto período, e logo em seguida caem das árvores e perecem.

Infelizmente ainda não pude presenciar isso, mas consigo entender o que se sente ao observar o desabrochar das flores de cerejeira - hanami, olhar as flores. Quanto mais disposto você estiver a observar a delicadeza e perfeição da cena, mais você vai sentir a beleza do espetáculo; assim, de certa maneira, florescendo junto com as flores.

Mas o hanami carrega outro significado: a reflexão sobre a fugacidade das flores de sakura. Dura no máximo seis, sete dias o período. São lindas essas flores, rosadas, delicadas, perfeitas. Por entre as alamedas floridas, tudo envolvido no rosa suave das pequenas flores... para logo em seguida, murcharem e morrerem. No entanto, isso não é encarado como tristeza para eles, e sim com alegria, pela possibilidade de estarem lá, e presenciarem essa maravilha: as flores morrem, mas o hanami fica para sempre na lembrança.

Beleza simples e perfeita, mas fugaz. Flores lindas, que emocionam e despertam sensibilidade e sorrisos...


A vida aqui na megalópole selvagem e cruenta nos faz correr atrás de objetivos áridos, que raramente nos satisfazem. Empregamos a maior parte do nosso tempo pesando, avaliando, até julgando coisas e pessoas...

Muitas vezes pesamos valores, e sempre achamos uma certa maneira de justificar colocarmos certas coisas de lado, para alcançar outras. O erro é que tantas vezes colocamos uma coisa que julgamos ser de máxima importância, e colocamos na pilha enorme de 'pendências' coisas que realmente valem alguma coisa. Nesse sentido, a ignorância, a desatenção, o orgulho, até a maldade, podem ser encaradas como uma maneira equivocada de enxergar corretamente as coisas. Se todos olhássemos de maneira cuidadosa, e ouvíssemos o sopro da sensibilidade ao considerar as coisas...



Há poucos dias tive a oportunidade de rever e tirar o pó do meu livro de formatura, a fim de olhar a foto de nossa turma, e encontrei o rosto de uma certa amiga.

Quando a olhei na foto, lembrei imediatamente de todas as conversas que tivemos. Não, não éramos próximos, íntimos, mas a lembrança nítida e reiterada que tenho dela é de seu rosto risonho, ela arrumando os óculos, sempre de bom humor (jamais a vi reclamar de nada, ou franzer o cenho).

Não me lembro mais das coisas que falamos, mas é nítida e clara a sensação do papo leve, divertido, animado... falou dos filhos (o que me tocou, pois ser mãe cobre a mulher de honras pra mim), das expectativas. Lembro-me de algumas vezes eu mesmo - excessivamente belicoso então - em silêncio, considerando as palavras conciliadoras dela. Belicoso, mas também sempre reflexivo, ficava mastigando as ideias.

Fim do curso, alegre, bom, mas fugaz. Cada um para um lado, pequenos grupos se dividindo, poucos mantendo contato entre si. 'É a vida', pensei, 'muito puxado pra todos', e fui me afastando também.

Erro meu.

São quase onze horas da noite agora, e eu acabei de chegar da cerimônia de seu falecimento. Não, não foi o velório; o velório eu não fiquei sabendo a tempo, pois baseado em pesagens equivocadas, afastei-me e perdi o contato com muitas coisas que realmente carregam em seu bojo algum valor. De qualquer modo, compareci, e tive a necessidade de prestar a homenagem à ela, à minha maneira pessoal.

Nesta noite de julho Adriana-san levou um querido amigo (mas quase sempre sisudo) para a festividade do hanami. Com seu ar risonho, seus óculos pequeninos, ela pegou ele pela mão e o levou para ver as cerejeiras em flor.

Os sutras ficaram inaudíveis, o mundo ficou em camera lenta, as cores e contornos esmaeceram, e eu, que estava com os olhos cobertos, passei a enxergar novamente. Ali, à volta de todos, só havia o tom rosado e suave das cerejeiras em flor.

O tom da noite não é de tristeza, é sim de saudade; mas principalmente, de gratidão. Um amiga que, até mesmo em sua passagem, me ensinou uma lição de tamanho inestimável: a aplicação do ensinamento budista da impermanência das coisas.

Minhas lágrimas hoje são para você, minha amiga. São lágrimas de muita alegria e extrema gratidão.

Convivemos por tão pouco tempo juntos... mas nós sabemos - sorrindo - que foi como o hanami.

domingo, 12 de julho de 2009

Comentários esparsos 1

Olha, só um comentário esparso...

Estou lendo o The Stand, do Stephen King, e cada vez que leio uma notícia sobre o H1N1 eu fico tenso. Simplesmente calhou a época e eu ter achado o livro num sebo por aí, num preço excelente, por indicação de uma amiga.

As situações são diferentes (ufa!) mas ainda assim, não me sai da cabeça a afirmação de que estamos preparados, e tudo está sob controle... não engulo isso. Será que há um controle efetivo de fronteira ? Tudo sob controle - como a dengue, por exemplo? (procure quantos casos confirmados tivemos em 2008, e até agora em 2009, e quantas mortes, se for curioso).

Mas, parabéns a todos que entram nos coletivos e fecham TODAS as janelas, quase vedando com silicone, silver-tape ou algo que o valha... é a maneira mais eficaz de propagar o calor humano, digo, o H1N1, meningite, etc, e de perpetuar o hábito espúrio de vedação de coletivos. Pelo menos morreremos todos juntos num ambulatório qualquer, com bastante calor humano...

sábado, 11 de julho de 2009

Ciclovias

Coloquei um gadget bacana aí na direita, mostrando a situação das ciclovias na cidade. Vale a pena testar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Cicloativismo

Não vou nem postar aqui o art. 5º da Constituição Federal... Se alguém nunca ouviu falar, fique à vontade para usar o oráculo (Google).

Há pouco tempo, tivemos uma discussão muito grande acerca da lei que determinaria o espaço mínimo de 1,5 metro para ultrapassagem de motociclistas. Alguns a favor, alguns contra, como sempre.

Mas - mais uma vez, como sempre - pouquíssimos sabem que esse limite já existe, protegido pelo Código de Trânsito vigente, para ciclistas.

Eu também sou habilitado, mas a bicicleta é uma preferência. Habilitado como você, que divide as faixas nas ruas de Sampa comigo. E antes que alguém proteste, é um carro a menos, sempre. Acho que bom senso cabe em qualquer lugar...

Enfim, lá vai o art. 58 do CTB:


"Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores."

Talvez o negrito não seja o suficiente: COM PREFERÊNCIA SOBRE OS VEÍCULOS AUTOMOTORES.

Não é 'com a exclusão', é 'com preferência'!! Amigo motorista, ninguém vai tomar o seu lugar, somente vai ter preferência. Ou melhor, eu tenho preferência por estar montado em varetas de metal, sobre você, num encouraçado com airbag. Caso não lhe pareça razoável, sugiro trocarmos de lugar...

Em tempo, me parece que não precisamos de ciclovias para pedalar... Alguns afirmam que não pedalam pois não há ciclovias... Eis a lei, que seja aplicada e respeitada. Se eu for ficar esperando a boa vontade alheia para o mundo melhorar, vou ser mais um no rebanho... Grato, vou pelo atalho alternativo; tento fazer minha parte, melhorando um pouco as coisas, dando exemplo, e estimulando mudanças boas ao meu redor...

Voltando ao limite mínimo de ultrapassagem, é infração de trânsito. Sim, meus caros, infração presente no art. 201:

"Art. 201. Deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta:

Infração - média;

Penalidade - multa."

Já existe sim, para ciclistas.

Via de regra, o ciclista se pauta pelo respeito e pelo bom senso. É um cidadão de boa paz. Geralmente segue uma ordem alternativa de idéias, de estilo de vida. E isso inclui não ocupar espaço, facilitar a vida e a via pública, e que como a maioria dos seres humanos não gosta da idéia de ser atropelado (risos).

Uma bicicleta é um carro a menos!
Pronto.

Cansado de sempre seguir o mesmo caminho, como gado. Preciso de um atalho alternativo pra mesmice do quotidiano. Redundante? não...

Redundante é manter-se na zona de conforto, sem reflexão, sem evoluir.

Como todo atalho, não sei onde vai dar, apenas suponho a direção: coisas úteis, idéias que facilitem as coisas - ou que pelo menos descompliquem.

Bom, não custa tentar.