sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Liturgia para Érato 0

Como a inspiração é o ópio necessário, sento-me aqui, envolto em espessa fumaça.




"Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insonte.

    Eu não sei por quê,
    Meu desde onde venho,
    Sou o ser que vê,
    E vê tudo estranho.

    Põe a tua mão
    Sobre o meu cabelo...
    Tudo é ilusão.
    Sonhar é sabê-lo."

    _______________________________________________________________
    "Não quero rosas, desde que haja rosas.
    Quero-as só quando não as possa haver.
    Que hei-de fazer das coisas
    Que qualquer mão pode colher?

    Não quero a noite senão quando a aurora
    A fez em ouro e azul se diluir.
    O que a minha alma ignora
    É isso que quero possuir.

    Para quê?... Se o soubesse, não faria
    Versos para dizer que inda o não sei.
    Tenho a alma pobre e fria...
    Ah, com que esmola a aquecerei?..."

    Fernando Pessoa, 7-1-1935.

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