No Japão, mais ou menos no começo de abril, as flores de cerejeira começam a florescer. Desabrocham num curto período, e logo em seguida caem das árvores e perecem.
Infelizmente ainda não pude presenciar isso, mas consigo entender o que se sente ao observar o desabrochar das flores de cerejeira - hanami, olhar as flores. Quanto mais disposto você estiver a observar a delicadeza e perfeição da cena, mais você vai sentir a beleza do espetáculo; assim, de certa maneira, florescendo junto com as flores.
Mas o hanami carrega outro significado: a reflexão sobre a fugacidade das flores de sakura. Dura no máximo seis, sete dias o período. São lindas essas flores, rosadas, delicadas, perfeitas. Por entre as alamedas floridas, tudo envolvido no rosa suave das pequenas flores... para logo em seguida, murcharem e morrerem. No entanto, isso não é encarado como tristeza para eles, e sim com alegria, pela possibilidade de estarem lá, e presenciarem essa maravilha: as flores morrem, mas o hanami fica para sempre na lembrança.
Beleza simples e perfeita, mas fugaz. Flores lindas, que emocionam e despertam sensibilidade e sorrisos...
A vida aqui na megalópole selvagem e cruenta nos faz correr atrás de objetivos áridos, que raramente nos satisfazem. Empregamos a maior parte do nosso tempo pesando, avaliando, até julgando coisas e pessoas...
Muitas vezes pesamos valores, e sempre achamos uma certa maneira de justificar colocarmos certas coisas de lado, para alcançar outras. O erro é que tantas vezes colocamos uma coisa que julgamos ser de máxima importância, e colocamos na pilha enorme de 'pendências' coisas que realmente valem alguma coisa. Nesse sentido, a ignorância, a desatenção, o orgulho, até a maldade, podem ser encaradas como uma maneira equivocada de enxergar corretamente as coisas. Se todos olhássemos de maneira cuidadosa, e ouvíssemos o sopro da sensibilidade ao considerar as coisas...
Há poucos dias tive a oportunidade de rever e tirar o pó do meu livro de formatura, a fim de olhar a foto de nossa turma, e encontrei o rosto de uma certa amiga.
Quando a olhei na foto, lembrei imediatamente de todas as conversas que tivemos. Não, não éramos próximos, íntimos, mas a lembrança nítida e reiterada que tenho dela é de seu rosto risonho, ela arrumando os óculos, sempre de bom humor (jamais a vi reclamar de nada, ou franzer o cenho).
Não me lembro mais das coisas que falamos, mas é nítida e clara a sensação do papo leve, divertido, animado... falou dos filhos (o que me tocou, pois ser mãe cobre a mulher de honras pra mim), das expectativas. Lembro-me de algumas vezes eu mesmo - excessivamente belicoso então - em silêncio, considerando as palavras conciliadoras dela. Belicoso, mas também sempre reflexivo, ficava mastigando as ideias.
Fim do curso, alegre, bom, mas fugaz. Cada um para um lado, pequenos grupos se dividindo, poucos mantendo contato entre si. 'É a vida', pensei, 'muito puxado pra todos', e fui me afastando também.
Erro meu.
São quase onze horas da noite agora, e eu acabei de chegar da cerimônia de seu falecimento. Não, não foi o velório; o velório eu não fiquei sabendo a tempo, pois baseado em pesagens equivocadas, afastei-me e perdi o contato com muitas coisas que realmente carregam em seu bojo algum valor. De qualquer modo, compareci, e tive a necessidade de prestar a homenagem à ela, à minha maneira pessoal.
Nesta noite de julho Adriana-san levou um querido amigo (mas quase sempre sisudo) para a festividade do hanami. Com seu ar risonho, seus óculos pequeninos, ela pegou ele pela mão e o levou para ver as cerejeiras em flor.
Os sutras ficaram inaudíveis, o mundo ficou em camera lenta, as cores e contornos esmaeceram, e eu, que estava com os olhos cobertos, passei a enxergar novamente. Ali, à volta de todos, só havia o tom rosado e suave das cerejeiras em flor.
O tom da noite não é de tristeza, é sim de saudade; mas principalmente, de gratidão. Um amiga que, até mesmo em sua passagem, me ensinou uma lição de tamanho inestimável: a aplicação do ensinamento budista da impermanência das coisas.
Minhas lágrimas hoje são para você, minha amiga. São lágrimas de muita alegria e extrema gratidão.
Convivemos por tão pouco tempo juntos... mas nós sabemos - sorrindo - que foi como o hanami.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
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Meus pêsames caro amigo.
ResponderExcluirParabéns, um lindo texto que demonstrou muito bem o carinho pela sua amiga.
Um grande abraço,
Fábio
Foi bem profundo e sincero no texto. É o deveriamos fazer não distanciar de pessoas queridas mas com a correria que nós mesmos criamos não temos tempo de pelo menos ligar e conversar com nossos amigos.
ResponderExcluirAmigo! Essas palavras me comoveram, e chorei ainda mais, pois tive um grande contato com ela, e agora só nos resta saudades!!!
ResponderExcluirBeijão
MIRIAM
Que jeito lindo de escrever a dor.
ResponderExcluirO grito do adeus levado pelas pequeninas pétalas da cerejeira.
Flores que sussurram.
O afastamento possibilitou a consciência da presença que nunca se ausentou.
O toque mágico da dor que fez despertar a sempre-vida.
Obrigada por partilhar sua riqueza interior.
Bjks
Cleusa
Muito comovente, não se encontra mais um sentimento puro assim. "Se todos olhássemos de maneira cuidadosa, e ouvíssemos o sopro da sensibilidade ao considerar as coisas..." Verdade! "As coisas tangíveis
ResponderExcluirtornam-se insensíveis
à palma da mão" "Mas as coisas findas muito mais que lindas essas ficarão" Drummond
Parabéns, é tocante.
Grande abraço.
Guerreiro