Era sábado, dia de calor, muita gente passeando, casais, amigos em grupos animados. Pedalava eu na Liberdade, a Chinatown paulistana, observando o movimento, quando me atraiu uma pequena aglomeração defronte uma porta.
Acho que é automático desse animal social sentir essa atração pela massa, e meio distante, reduzi a velocidade para poder ver o que se passava ali. Mas logo a aglomeração se desfez, e pude ver claramente - para logo em seguida ser atraído para a porta.
Deitado na soleira, um gato preto.
Preto e peludo, via-se que não era um gato qualquer. Era um gato preto de rua em especial, exatamente por ser preto, e estar na rua sem dono, um gato de ninguém, preto e muito peludo. Mais especial ainda, por ter sido há pouco atropelado.
Sim, pois um mero gato preto é invisível aos olhos. Ou melhor, qualquer gato - ou até cachorro; que dirá passarinho. Aves canoras invisíveis para nossos ouvidos cegos.
Alheio em sua dor cegante, silente, o gato não-invisível não miava: salvava suas pequenas forças para aguentar firme, numa mostra de firmeza e fortitude que poucos humanos que conheci na vida conseguiram mostrar. Alheio, nem mesmo me notou olhando sua miséria felina.
Notem bem, neste ponto temos imperiosa a escolha: ou eu viro as costas e vou embora lamentando, ou eu faço o que puder para mudar o que eu vi.
Escolhas, escolhas... a vida é feita de escolhas, e elas acabam fazendo você. Então, fiz a escolha mais natural, óbvia, lógica.
Desci a rua à toda, de pé na bicicleta, em direção à Conselheiro Furtado, onde tinha certeza que encontraria um veterinário.
No primeiro, a veterinária tinha saído há pouco, e não iria voltar. Pena. Fui até o mais próximo, mas infelizmente encontrei uma comerciante - dentro de seu direito de sê-lo.
Voltava, cenho franzido mas longe de estar derrotado, já planejando voltar na primeira clínica, e solicitar gentilmente ao funcionário ligar no celular da Doutora, como emergência (que o era). Não foi necessário, uma senhora que comprava ração e ouviu meu relato acenava me chamando, e sorriu ao dizer que a veterinária havia voltado. Entrei e contei à ela o que vi, sem dar muitos detalhes. Ela pensou um pouco, me olhando nos olhos, e concordou, dispondo-se inclusive a pegar um transporte da clínica.
Subíamos a rua a pé, e eu explicando melhor, quando vimos um grupo de crianças carregando um engradado e algumas senhoras acompanhando. Era o grupo de socorro improvisado, trazendo o bichano (que agora miava desesperadamente devido aos inevitáveis sacolejos do caixote). Olhei cuidadosamente a veterinária, e percebi seu choque ao ver o estado dos ferimentos. Ela me olhou de volta, condoída, e disse: 'você tinha razão, vai ter que amputar a patinha dele...'.
Em poucos segundos, dialoguei com as senhoras, trocamos telefones, e combinamos de dividir a conta. A veterinária custeou os gastos de material, num gesto de dignidade profissional e desapego.
No final do dia, uma das senhoras, que trabalha no SAMU, ligou-me e contou que a cirurgia tinha corrido muito bem, e o gatinho já estava bem, com ela. Ela iria adotar o gatinho definitivamente. Desliguei o celular e sorri, satisfeito. Já podia deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.
Dra. Ana Paula, presenciei sua atenção e disposição para o trabalho à que se devotou. Que Deus faça na mesma medida quando você precisar. Muito obrigado, pois não foi só o gato que você curou e salvou ali. Em grande parte, foi a minha dor também, a minha paz de espírito.
Época em que humanos se dissociam de seu lado mais humano, em que é mais natural fotografar com o celular, ou filmar e colocar no Youtube, do que fazer alguma coisa; em que emulamos simpatia e não imaginamos o que significa empatia...
Alheios, repletos de dor e miséria, sentamos na soleira da porta, atropelados pelas dificuldades, sangrando, sujos, esfolados, mutilados, sem conseguir andar meio milímetro. Alheios e cegos, nem mesmo vemos o que temos à nossa volta, ignoramos os olhos que nos observam - como nós mesmos - sem nada fazer. Quantos gatos pretos, invisíveis! Todos no mesmo barco, julgando estar cada um no seu planeta, desvinculados do resto...
'O que eu posso fazer?' perguntamo-nos diversas vezes, eu incluso. Ora, eu posso qualquer coisa. Isso se aplica sempre que estão envolvidas situações de humanidade. Há o ponto de intersecção entre o que é bom e certo, e a prova real dessa área é a Regra de Ouro: 'faça pelos outros o que gostaria que fizessem a você' - ensinamento eterno de meu velho pai. A certeza de que eu posso fazer alguma coisa dá uma sensação concreta de segurança que só quem age assim sabe como é. Gostaria que todos tentassem ao menos uma vez, para ficarem viciados na sensação de plenitude depois de ajudar...
Não fiz nada, e tive tanto em troca... A tranquilidade de saber que aquele animalzinho não está mais sofrendo, na rua, está recebendo carinho, e as várias pessoas anônimas - como eu - que se uniram para fazer a diferença. Anônimos, que jamais vão se ver novamente, mas sempre vão lembrar do sábado de calor, em que um gato preto havia sido atropelado.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
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Igor,
ResponderExcluirSabe, esse seu blog me surpreende!
Estou conhecendo um lado seu que eu não achei que existisse. rs
Adorei esse relato! Como o mundo seria diferente se cada um de nós fosse viciado em pelo menos tentar mudar as coisas.
É assim que o mundo iria melhorar: Cada um fazendo a sua parte!
Boa semana,
Beijos
Nossa ... linda a sua atitude ...
ResponderExcluirParabéns por isso ..!
beeijos
Igor, a Atenção-plena, ou Compaixão, nos torna livres, livres e responsáveis. Engraçada esta "sincronia felina" entre nossas publicações, a cidade oferece tudo isso.
ResponderExcluirEsse bichano tinha que lhe encontrar...
ResponderExcluirNão esperaria menos de sua atitude!!!
Bjão!
Miriam